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9/7/2009
CINCO TESES SOBRE A CRISE NA UNIVERSIDADE

Naomar de Almeida Filho*


Pierre Bourdieu, cientista social recentemente falecido, avançou uma crítica à escola em geral e à universidade em particular como dispositivos do Estado para a reprodução social.


Eis a base da primeira tese: a universidade, em toda sua história, tem sido fundamental na reprodução da estrutura de classes da sociedade; elitista e alienada, confirma seu mandato de guardiã da cultura (dominante), de formadora de quadros (dirigentes), de produtora de conhecimento e tecnologia (economicamente relevantes) e de capital simbólico (politicamente apropriado).


Nessa perspectiva, a universidade gera e gerencia capital científico e cultural essenciais para o modo de produção capitalista, além de atuar como formadora de quadros orgânicos das classes dominantes. Sua ação é social e politicamente relevante não só para a reprodução da instituição mas também para a reprodução ampliada da estrutura de classes.


Simpatizo mais com a tese dois, formulada há mais de 40 anos por Anísio Teixeira, notável educador baiano, como argumento central de sua visão política da educação. Anísio defendia que a revolução democrática, pacífica e sustentável será viabilizada pela universalização da educação nos níveis iniciais -como condição de emancipação política e de equidade social- e por ampla oportunidade de acesso à formação universitária -determinante do desenvolvimento econômico e humano das nações.


A educação, no sentido de formação de cidadãos cultos, críticos e livres, é sem dúvida uma das maneiras eficientes de superar não só crises mas também estruturas e conjunturas. E o que fazer quando é a própria universidade que se supõe em crise?


Isso nos leva à  tese três, formulada por Boaventura Santos, sociólogo e pensador lusitano, reconhecido por suas análises da crise de identidade da universidade velha. A universidade, em sua nova história, será necessária, quiçá imprescindível, à superação da sociedade de classes. Comprometida com a transformação social, confirmará sua missão de promotora da etnodiversidade, fomentadora da epistemodiversidade e formadora de cidadãos críticos e engajados.


A etnodiversidade corresponde ao interculturalismo que enriquece (e conflita) o mundo globalizado, e o que chamo de epistemodiversidade tem o nome de ecologia dos saberes na obra de Boaventura.


A quarta tese foi proposta em 1978 por Milton Santos, geógrafo e pensador baiano, num livro chamado “Por uma Geografia Nova”. Essa tese valoriza o novo, “o ainda não feito ou não codificado (…), o desconhecido [que] só pode ser conceitualizado com imaginação, e não com certezas”.


Mais que nunca, é  preciso ser criativo para imaginar, experimentar e realizar algo que ainda não havia sido tentado. A tese Milton Santos é uma proposta metodológica desafiadora e ousada que, de certo modo, indica um caminho, um como fazer.


Bourdieu faz um diagnóstico preciso, mas pessimista, sem apontar saídas. Anísio, otimista quase utópico, descortina o horizonte, largo, da educação como libertação. Boaventura apresenta um projeto, digamos, realista de superação das crises políticas resultantes do afastamento da universidade das formações sociais que a aninham. E Milton nos incita a usar a imaginação para criar crises de transformação.


No ano passado, Boaventura fez uma conferência em nossa instituição. Concluiu dizendo que a missão da universidade no século 21 será formar “rebeldes competentes”, e não, eu acrescentaria, tolerar pessoas confusas e incultas, tão cheias de certezas. Nesse espírito, gostaria de concluir com uma tese-síntese.


Rejeito o pessimismo de Bourdieu e antevejo a revolução pacífica pela educação do Anísio visionário. Para enfrentar as sucessivas crises de identidade, realização e legitimidade social da universidade contemporânea, penso que já  não basta recuperar tradições vazias e celebrar pactos micropolíticos. A missão da universidade no século 21 será provocar crises de transformação e renovação, que proponho chamar de crises miltonianas.


A força criativa da instituição universitária, recuperada pela experimentação de formas novas de arquitetura curricular, organização institucional e prática pedagógica, pode e deve fomentar um tipo diferente de crise, crises de renovação.


Tais crises configuram transgressões produtivas, de que a universidade brasileira tanto precisa para resgatar o atraso de sua história.


*Naomar de Almeida Filho, 57, doutor em epidemiologia, é reitor da Universidade Federal da Bahia e autor, com Boaventura de Sousa Santos, de “A Universidade do Século XXI: Para uma Universidade Nova” (Almedina, 2009).



Naomar de Almeida Filho*Artigo publicado na Folha de S. Paulo, de 5 de julho de 2009.


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