O PED E SUAS GRAVES DISTORÇÕES
O PT é o partido brasileiro com maior número de filiados? Muitos dizem que sim, com grande dose de orgulho. Entretanto, se não o é, e ainda perdemos para o PMDB, caminhamos a passos largos para alcançá-lo a julgar pelo ritmo alucinado de filiações realizadas nos últimos tempos. Diga-se: filiações que ocorrem próximo aos processos eleitorais internos que redefinem ou acentuam o perfil, o caráter e as contradições do nosso partido. Filiações com vida curta e alta rotatividade, uma vez que se observados os que votam em cada PED há uma acentuada participação de filiados recentes em detrimento dos antigos militantes. E a cada atualização, o recadastramento está mais interessado em se desfazer desses últimos, que foram fundamentais para a construção de um partido de massas, militante e com perfil socialista, e em substituí-los, sem pudor e sentimento de culpa, por filiados pragmáticos, em busca de vantagens imediatas que o poder oferece. Poder da própria máquina partidária, dos mandatos parlamentares, dos mandatos executivos, da esfera sindical e tantos outros.
Para participar do processo decisório basta estar filiado há pelo menos um ano e em dia com a obrigação financeira. E, se não estiver quites com o partido, o pagamento pode ser feito no próprio PED, nas Convenções e outros eventos deliberativos. Nada que um acordão entre tendências e chapas, que um cheque pré-datado em nome de vários votantes e outras modalidades de burla do Estatuto e do Código de Ética não resolvam, com o jeitinho brasileiro e petista de ser! Seguindo nessa trajetória, tomamos o PMDB como nossa referência não apenas em relação ao porte do partido e seus milhões de filiados, mas sobretudo, e o que é profundamente lamentável, no que diz respeito à prática partidária, ao fisiologismo e à perda de nitidez ideológica. Esse tipo de eleição direta das direções, com quase meio milhão de eleitores em todo o país, revela, ou melhor dizendo, esconde, graves distorções e nos leva rapidamente para o conhecido processo de burocratização, de enfraquecimento do debate político e de subordinação dos partidos de esquerda às conveniências dos que neles se instalaram a partir de acordos de ocasião, sem maior consistência política.
A Mensagem ao Partido, o Movimento PT, a Esquerda Socialista e correntes trotskistas ousaram discordar da tese de que o acordão era o melhor caminho para fortalecer o PT e a nossa candidatura presidencial. Lançaram chapas próprias nacionalmente, apresentaram teses com coerência interna e disputaram legitimamente o direito à participação proporcional dessas tendências, correntes e movimentos nas direções partidárias, este sim um elemento diferenciador do PT em relação aos demais partidos, inclusive de esquerda, e que ainda não foi sacrificado em nome da unidade. Serão resquícios de uma visão utópica de democracia socialista entre nós? Espero que não! Defendo que a Mensagem ao Partido dialogue de maneira organizada com esses setores e no conjunto do partido sobre a necessidade de fazermos sincera autocrítica do método que se tomou como modelo petista de organização, de tal modo que a concepção do PED seja revista, bem como os critérios de filiação, de militância e de participação nas decisões do partido.