Antes mesmo do sol nascer, um carro de som com a bandeira da Central Única dos Trabalhadores já ocupava a entrada principal da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, região do Grande ABC. À espera dos trabalhadores da Ford de Taboão da Serra e da autopeças Rassini, os companheiros tomavam o estacionamento da montadora nesta terça-feira (20).
Na região, símbolo da luta por direitos da classe trabalhadora e importante pólo automobilístico, mais de 15 mil metalúrgicos deram uma demonstração de união e força: paralisaram a produção com o objetivo de responder a quem acredita na proposta infeliz de redução de salários e mostrar que há outros caminhos para enfrentar a crise.
Munidas de faixas com dizeres que ressaltavam a necessidade de investir na produção e não na especulação e diminuir os juros para gerar emprego, milhares de pessoas integraram uma grande marcha que seguiu pela Avenida 31 de Março rumo à autopeças Mahle Metal. A caminhada contou também com dirigentes sindicais de diversas categorias da CUT, com a subsede da CUT no ABC, com vereadores de São Bernardo do Campo e com a presença de Ariel de Castro Alves, presidente da Fundação Criança, representando o prefeito Luiz Marinho.
Mobilização para enfrentamento
Presidente nacional da CUT, Artur Henrique destacou que a prioridade neste momento é manter os trabalhadores organizados e mobilizados para garantir os direitos conquistados. “A única saída para enfrentar a crise é garantir emprego e renda. Não podemos aceitar empresários fecharem o ano de 2008 com altos lucros, como é o caso das grandes montadoras, da construção civil, dos bancos e do setor energético, e logo no início do ano acenarem com redução de emprego e de salário como forma de fugir da crise”.
O dirigente fez ainda um balanço da audiência da Central com o presidente Lula, nessa segunda-feira (19). “O primeiro item que levamos ao presidente foi a necessidade de reduzir juros e liberar o crédito para o produtor e o trabalhador. Além disso, as empresas beneficiadas com empréstimos de dinheiro público devem ser obrigadas a manter e ampliar o emprego como contrapartida”, acrescentou.
Economia e infra-estrutura
Secretário Nacional Geral da CUT, Quintino Severo reforçou a postura da entidade. “Não é com desemprego e com redução de salário que conseguiremos manter o desenvolvimento. Para estimular o consumo precisamos que o trabalhador tenha dinheiro na mão”. De acordo com Expedito Solaney, Secretário Nacional de Políticas Sociais, é necessário ir além e “investir em infra-estrutura e políticas públicas de qualidade”.
Representante da IG Metall, sindicato de metalúrgicos da Alemanha, Thomas Steinhawser lembrou uma questão importante: de onde veio a crise? “Esse momento é o resultado da especulação produzida por muitas pessoas que ganharam muito dinheiro e agora não sabem como pagar a conta. Não serão os trabalhadores que arcarão com o prejuízo”, disse.
Segundo Adi Lima, Secretário Geral da CUT-SP, a manifestação foi apenas o início do movimento de resistência contra a redução de salário. “Esse processo se desdobrará em outras ações como propostas de políticas afirmativas. Defendemos a redução de juros para injetar recursos na economia e a retomada do investimento público numa velocidade maior para gerar emprego e renda. Mais dinheiro na mão do trabalhador se transforma em consumo, que resulta em mais produção e mais crescimento, mantendo assim o ciclo virtuoso que o país apresentava”, comentou.
Por setor
Paulo Lage, presidente do Sindicato dos Químicos do ABC-CUT/SP, reforçou a necessidade de evitar a lógica da catástrofe. “Não pode existir generalização. Ao avaliar setor por setor para fecharmos acordos impedimos espertalhões que não estão sofrendo prejuízos de tentarem diminuir salário. Será que o aluguel e as parcelas que precisamos pagar vão diminuir com o achatamento dos nossos vencimentos?”, questionou.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, encerrou a manifestação atacando três pontos: a sazonalidade do setor (“não podemos fazer avaliação da crise em janeiro. Devemos aguardar o primeiro trimestre”), a ‘gordura’ que as empresas possuem (“como um setor que fechou o ano com aumento de vendas de 8,5% em relação a 2007 vem falar em corte?”) e o conteúdo da conversa que terá com Lula, em audiência marcada para esta quarta (20) (“amanhã, quando sentar com o presidente, vou dizer que não é a crise a culpada pelas demissões no Brasil, mas a irresponsabilidade dos empresários”.).
Nobre elencou ainda outras medidas que devem ser adotadas ao invés da demissão. “Se os patrões lançarem mão de férias normais, férias coletivas, licença-remunerada e banco de horas, certamente vamos sair da crise sem perder nenhum posto. Por outro lado, tenho certeza que depois de hoje as empresas vão pensar 10 vezes antes de nos procurarem para reduzir salário”.
Por fim, o dirigente convocou uma votação simbólica. “Quem é favorável à deliberação de nenhuma retirada de direitos?”, perguntou para ver milhares de mãos para o ar. “É assim que os trabalhadores transformam sua história”, encerrou.