Em entrevista à Terra Magazine, o economista Paul Singer avalia que essa classificação do Brasil "vai estimular mais ainda o investimento puramente especulativo, que chega no País e fica relativamente pouco tempo. Pode ficar mais tempo, mas sempre pronto pra levantar vôo ao menor sinal de mudança da conjuntura mundial".
Singer é fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), autor de Desenvolvimento e Crise e Introdução à Economia Solidária, entre outros livros. Professor da USP em 1969, foi cassado e aposentado compulsoriamente por se opor à ditadura militar. Pertenceu ao corpo de intelectuais do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).
Leia a íntegra da entrevista.
Terra Magazine - Como o senhor interpreta a promoção do Brasil ao grau de "investimento seguro" pela agência Standard & Poor´s?
Paul Singer - Bom, em primeiro lugar, não há nenhuma supresa. Havia uma grande expectativa de que isso viesse a acontecer, até mais cedo. Acabou acontecendo agora. Mas é a promoção de uma agência privada, é bom entender isso. Nada a ver com o mundo público. A agência privada que faz análise de risco para o mercado financeiro, a Standard & Poor´s, nos promoveu mais um degrau, o que indica aos especuladores do mercado financeiro que o Brasil deve honrar suas dívidas. Indica basicamente isso.
Os indicadores econômicos do Brasil oferecem a segurança alardeada pelo governo?
Eu suponho que as reservas cambiais, por exemplo, devem pesar. Eu tô chutando, viu? Nunca trabalhei em agências de análise de riscos e duvido muito que elas tornem público sua metodologia. Se eu fosse ela, tomaria em muito alta importância a evolução política. Nesse sentido, o Brasil tem demonstrado bastante estabilidade. Desde a volta da democracia, o único evento fora do normal seria o "impeachment" do Collor. Então, mesmo desse ponto de vista, pode ter contribuído sobretudo a relativa guinada que o presidente Lula deu quando se empossou, no sentido de fazer as pazes com o mercado financeiro e garantir ao mercado financeiro as garantias que ele precisa ou exige. Mas isso são hipóteses. Ninguém sabe.
O que essa classificação representa para um cidadão comum? Qual o impacto dela em nosso, por assim dizer, cotidiano econômico?
A meu ver, vai estimular mais ainda o investimento puramente especulativo, que chega no País e fica relativamente pouco tempo. Pode ficar mais tempo, mas sempre pronto pra levantar vôo ao menor sinal de mudança da conjuntura mundial. Esse é o tipo de capital que não nos convém. Ele é bem prejudicial ao nosso País. Não dá para evitar que uma agência privada nos promova ou eventualmente rebaixe, mas o governo começou a tomar uma medida que já estava preconizando há muito tempo: agora ele está cobrando IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre os capitais que vêm aqui especular, sobretudo com os títulos do Tesouro.
Acho que a gente devia fazer mais: estender a todos capitais que não entram em investimentos em fábricas ou em outras coisas materiais, os chamados investimentos diretos. Mas para os outros todos nós devíamos estar cobrando um IOF tão alto quanto necessário para desencorajar. Porque isso tem sido bastante deletério pra economia brasileira. Assim como entra em grande volume, acaba fazendo com que a gente perca mercados de exportação, passe a importar produtos que já são produzidos no Brasil, feche empresas aqui. Em outro momento, dá uma fuga, a inflação sobe. É o que aconteceu em 2002, 2003. Acho que o País deve se blindar contra isso. Nossa promoção em "investiment grade" fortalece a necessidade de controlar mais ainda esses fluxos deletérios. Alguns até chamam de "fluxos corsários" (risos).
Essa estabilidade econômica permite mais ousadia ao governo? Quais seriam as questões cruciais a partir de agora?
Fora essa questão que nós conversamos, pelo menos a olho nu, eu acredito que ao contrário de ousado, o governo deveria se precaver contra a falta de alimentos. É uma crise mundial como nunca houve em tempos de paz. Já tem três anos, esse aumento forte de preços começou em 2005 e está continuando em 2008. Significa que há um desequilíbrio crescente entre oferta e demanda. O Brasil já restringiu a venda dos estoques públicos de arroz. Creio que seria importante fortalecer os estoques estratégicos pra garantir o abastecimento interno. Já houve motins de fome em 37 países.
O investimento em biocombustíveis é um agravante?
Essa é uma outra questão. Eu diria que, no caso nosso, a possibilidade de aumentar a produção é muito grande, internacionalmente reconhecida. Não apenas de biocombustível, mas também de alimentos. Enfim, essa é uma crise mundial em que a ONU (Organização das Nações Unidas) está tomando a posição certa. Tenho entusiasmo porque ela se alarmou de fato e está alarmando o mundo.
Virou o principal pólo do debate.
Exatamente. A questão agora é que se trata de um processo de empobrecimento. Quando o preço da alimentação sobre, são os pobres que sofrem, não você e eu. Se a gente paga mais 20% sobre a comida, é insignificante porque nossa comida não representa mais do que 10% do que a gente gasta. Mas para uma família pobre, que gasta 2/3 do que ela tem em comida, para alimentar seus filhos, o aumento de 20% é catastrófico. É uma situação realmente alarmante, sobretudo do ponto de vista de empobrecimento mundial. O Brasil deve contribuir pra isso, assim como outros países também. Deveria haver uma ação internacional para desencorajar o consumo de carnes e derivados de carne. Porque isso é muito caro. É parte da crise. Porque, em vez de consumir os cereais, nós os damos aos animais e comemos as carnes deles. Duplica o uso da água e da terra.